pitacos sobre o oscar o oscar ele

Melhor Filme:
Deve ganhar: Birdman/Boyhood
Torço pra: Whiplash

Melhor Diretor:
Deve ganhar: Alejandro Iñarritu (Birdman)
Torço pra: Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste)

Melhor Ator:
Deve ganhar: Eddie Redmayne/Michael Keaton
Torço pra: Michael Keaton

Melhor Atriz:
Deve ganhar: Juliane Moore
Torço pra: Marion Cotillard

Melhor Ator Coadjuvante:
Deve ganhar: J.K. Simmons
Torço pra: J.K. Simmons

Melhor Atriz Coadjuvante:
Deve ganhar: Patricia Arquette
Torço pra: Emma Stone

Melhor Roteiro Original:
Deve ganhar: Birdman
Torço pra: O Grande Hotel Budapeste

Melhor Roteiro Adaptado:
Deve ganhar: O Jogo da Imitação
Torço pra: Whiplash

Melhor Animação:
Deve ganhar: Operação Big Hero/Como Treinar o Seu Dragão 2
Torço pra: O Conto da Princesa Kaguya

Melhor Fotografia:
Deve ganhar: Birdman
Torço pra: O Grande Hotel Budapeste

Melhor Trilha Sonora:
Deve ganhar: A Teoria de Tudo
Torço pra: O Grande Hotel Budapeste

Melhor Filme Estrangeiro:
Deve ganhar: Ida
Torço pra: Leviatã

Melhor Documentário:
Deve ganhar: Citizenfour/Finding Vivian Maier
Torço pra: Citizenfour

Melhores Efeitos Visuais:
Deve ganhar: Interestellar
Torço pra: Guardiões da Galáxia

Melhor Canção Original:
Deve ganhar: Glory (Selma)
Torço pra: I’m Not Gonna Miss You (Glenn Campbell – I’ll Be Me)

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TOP 10 ÁLBUNS DE 2014

Ano fraquíssimo em comparação com 2013, mas dentre os bons, meus favoritos são esses:

1. The War on Drugs – Lost in the Dream
2. Purling Hiss – Weirdon
3. Neil Young – Storytone
4. Pixies – EP2
5. Sharon Van Etten – Are We There?
6. Beck – Morning Phase
7. Down – Down IV Part 2
8. Swans – To Be Kind
9. Cloud Nothings – Here and Nowhere Else
10. Bruce Springsteen – High Hopes

Também muito bons:
Foo Fighters – Sonic Highways
Bob Mould – Beauty and Ruin;
Against Me! – Transexual Dysphoria Blues;
Brody Dalle – Diploid Love;
Damon Albarn – Everyday Robots;
Stephen Malkmus and The Jicks – Wig Out at Jagbags;
PJ Harvey – Red Right Hand;
Wild Beasts – Present Tense;
Morrissey – World Peace is None of Your Business;
The Breeders – Biker Gone/Beautiful Moon;
Calle 13 – Multi Viral;
Ty Segall – Manipulator;
Parquet Courts – Sunbathing Animal;
Meatbodies – Meatbodies;
AC/DC – Rock or Bust;
Black Rebel Society – Catacombs of the Black Vatican;
Leonard Cohen – Popular Problems;
Pink Floyd – The Endless River;

Muito ruins:
St. Vincent – St. Vincent;
Interpol – El Pintor;
Alt-J – This is All Yours;
Drowners – Drowners;
tUnE-yArDs – Nikki Nack;
Spoon – They Want My Soul;

Fora muitos e muitos e milhares de outros que eu não tive a oportunidade de ouvir. Parece que esse ano os anciãos se saíram melhor que os novatos, nada de novo. No mais, achei que o indie deu uma caída em relação ao ano interior (exemplo de Kurt Vile, autor do melhor álbum de 2013), e que o folk e o metal tiveram os melhores representantes.

o sentimento universal

as músicas do arcade fire se baseiam em um sentimento muito compartilhado pela música e pela meia-idade em geral: a saudade. é dela que o fundador do grupo, win butler, tirou espírito para compor algumas das mais intensas músicas do indie pop/noise pop/indie rock/alternative/grunge/forró-pestana roqueiro. durante toda a discografia de três grandes álbuns da banda é possível detectar, de diferentes formas, as manifestações de uma melancolia corriqueira e onipresente: a saudade é uma nota que se repete linearmente por toda a obra do arcade fire.

de forma mais agressiva, ela aparece no álbum de estreia, Funeral, que teve como plano de fundo as mortes de diferentes familiares de membros da banda. daqui surge a temerosa inspiração para o que parece ser uma mistura entre o réquiem choroso e a esperança recuperada, nascida do conforto que a dor traz. (“o gelo cobriu as mãos dos meus pais/ não tenho mais sonhos, não tenho mais planos“). régine chassagne sente sua família, tão presente na infância, e tão forte, desfalecer-se com a morte de uma matriarca, fato ao qual ela não deixa de prestar um tributo emocionado: (“minha árvore genealógica/perdendo todas suas folhas […] /um relâmpago fez calor o suficiente / para derreter o asfalto sob seus pés“), declama ela em In the Backseat, talvez uma das mais completas músicas do grupo. 

em Neon Bible, a saudade tem como alvo as formas mais inocentes e puras do pensamento adolescente de como funciona o mundo. butler mira na sua criação religiosa, onde o mormonismo o levava a ver a vida de uma forma incongruente com os desafios da adolescência. as referências bíblicas, aliás, vão além da faixa-título, se estendem para a canção de abertura, Black Mirror, onde o surrealismo vanguardista ocupa, por um momento, o centro das emoções (“o espelho negro não conhece o reflexo não conhece o orgulho, nem a vaidade“). 

apesar de todas essas, o melhor da banda aparece mesmo é no terceiro álbum, The Suburbs, de 2009, facilmente carimbado como obra-prima. dele surgiram diversas experiências de além-música – a mais conhecida sendo uma parceria com o cineasta queridinho hipster Spike Jonze para um curta metragem adaptado das canções do álbum. estas, por sua vez, tem como musa as figuras que butler conheceu quando criança, e que insistem em desaparecer depois de crescidos: (“[…] não consigo me lembrar / mas você cortou o cabelo, e nunca mais o vi / e as cidades onde vivíamos / parecem estrelas distantes / mas ainda o procuro, em cada carro a passar“). de certa forma, são sentimentos verdadeiros, expressos da melhor forma em canções como Ready to StartSuburban WarDeep Blue Month of May.

e, por fim, abaixo segue a letra e apresentação ao vivo de We Used to Wait, uma das faixas de encerramento de The Suburbs. uma das mais memoráveis conquistas do grupo, onde os sentimentos expressos no álbum se convergem em um nível de habilidade musical a ser respeitado, não antes de ser apreciado:

I used to write,
I used to write letters
I used to sign my name

I used to sleep at night
Before the flashing lights
Settled deep in my brain

But by the time we met
By the time we met
The times had already changed

So I never wrote a letter
I never took my true heart
I never wrote it down
So when the lights cut out
I was left standing in the
Wilderness downtown

Now our lives are changing fast
Now our lives are changing fast
Hope that something pure can last
Hope that something pure can last

é “só” uma fase

o engraçado de certas bandas lendárias, com mais de 40 anos de carreira, estrela na hall da fama do rock, etc, é poder encaixar suas “fases”, ou “períodos” de acordo com a nossa própria percepção da história de cada um. temos os beatles boy-band, os beatles polemicuzões, os beatles cabeça, os beatles hipongas, e por último, os beatles transloucados. o metallica pré-puppets, pós-justice, black album, fase-load, pós-decadência. o led zeppelin, da pauleira ao folk transcendental e intimista. até mesmo os rolling stones, que tentaram manter as raízes no blues intocadas, por vezes patinam por terrenos estranhos.

como fã de aerosmith, também tomo a ousadia de criar um pigeonhole para cada situação emocional na qual os rapazes de Boston parecem se encontrar em cada fase de sua história. os critérios variam dos mais óbvios aos mais preconceituosos (difícil, por exemplo, deixar de associar as mudanças musicais com a afinação da voz de steven tyler). um conceito fixo, no entanto, se baseia nos quatro primeiros álbums da banda, respectivamente, Aerosmith (1973), Get Your Wings (1974), Toys in The Attic (1975) e o ápice dessa chamada fase, Rocks (1976).

difícil não reconhecer em Rocks toda a base para o rock dos anos após 1976. foi o álbum que oficializou o que seria o som predominante da retomada do rock como gênero no fim dos anos 80, do surgimento do thrash, do hair e do afirmamento do grunge. foi o vinil que os pré-adolescentes do speed metal, do nu e do metalcore ouviam e também o que tomou a decisão por eles de se tornarem também roqueiros. foi o disco que ensinou slash e james hetfield a tocar guitarra. e foi o braço direito na carreira musical de quase todo mundo que gritava e grunhia nos anos 80-90.

o impacto cultural que o álbum causou é evidente e definitiva. difícil é explicar por que. talvez seja o caldeirão cuja mesma fórmula fermentou o gênero do rock em si nos anos 50: aqui a pauleira se funde pra sempre com a sensualidade da guitarra blues que formava a espinha do som da banda ainda no começo, lá no fim dos anos 60, quando todos estavam saindo da puberdade física para penetrar a adolescência da fama. talvez também seja a representação para a sede musical que todos os roqueiros da década de 80 sentiam na época (se forçar muito, dá pra ver a semelhança óbvia do começo de Nobody’s Fault, faixa mais nervosa da lista, com o de Damage Inc., última e mais elétrica música do Master of Puppets do Metallica. ambas começam em atmosférica sinteticidade para explodirem no corpo violento da canção em si).

mas a melhor explicação é também a mais descarada: é um baita dum álbum. fecha com chave de ouro a primeira grande fase da banda, e tem o efeito colateral de nunca ter conseguido ser plenamente igualada durante o resto da enorme carreira de seus integrantes.

de qualquer forma, ninguém faz nada que possa vencer depois. Rocks não precisa ser vencido, todo mundo já o elegeu como especial na história do rock. não tem “fase” que derrube esse veredito.

vanguardas na sala de jantar

qualquer coisa falada antes sobre Os Mutantes já foi suficiente e dificilmente alguém pode acrescentar algo mais. Os Mutantes, de qualquer forma, não é banda de descrições, resenhas, crônicas ou notas. simples e diretamente, é uma banda que prezava pelo impulso mais primitivo e ancestral da música: a emoção. pensando assim, fica fácil entender porque algumas de suas canções mais famosas exerçam até hoje, uns cinquenta anos depois de suas respectivas composições, um certo fascínio e excitação que só quem aprecia a música como parte inerente da natureza pode totalmente entender.

de toda a sua eclética e abrangente discografia, podem ser tiradas influências e estilos musicais diversos. o aspecto da emoção, no entanto, permanece o mesmo durante os 14 álbums e EPs que a banda lançou em meio século. uma emoção que explica desde as façanhas de gás progressivo e psicodélico de sérgio dias (único membro original sobrevivendo da marca do grupo), às inspirações políticas da trilogia inicial – Os MutantesMutantesA Divina Comédia -, munidas de um humor tão sutil que chegam disfarçadas de desprezo: “[…]Essas pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer“, diz a maior de suas músicas-legado, Panis Et Circences, composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil e hoje repetida em forma de hino por quem ainda se lembra.

as letras sublimes, fundidas na voz debochada, quase risonha, ora de arnaldo baptista ora de rita lee, por vezes fazem o ouvinte se sentir atingido. mas também fica claro que é essa a exata intenção, apontar a arma para quem se julga seguro do olhar intelectual privilegiado dos mutantes, que usavam de um gosto incomum pela música e, enfim, pela vida. no fim, o constrangimento dos alvos pode sumir e mostrar que os mutantes, além de atacar nossa vida, também nos convidam para uma nova, do lado de lá, onde tudo parece melhor: “Ah! Deixa pra lá meu amor Vem comigo e esquece Este drama ou o que for Sem sentido“, é o que sugerem em Quem Tem Medo de Brincar de Amor. 

uma das minhas bandas favoritas, os mutantes eventualmente sentiram a lâmina fria da realidade penetrando a fantasia, em conflitos que envolvem drogas, ciúmes e partidas. nada, porém, que valha a pena ser lembrado aqui, onde a emoção que sobrou ainda pode ser sentida e abraçada. vítimas, enfim, de seus tempos, mas também – e felizmente – da imortalidade.

em vídeo, Fuga Nº2, numa apresentação sentimental diante de uma plateia inconsciente.