A Falta de Música na Música do The Last Shadow Puppets

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Quando um roqueiro tira folga de sua banda de estreia pra experimentar a estrada no banco do motorista numa carreira solo, a cartilha tradicionalmente favorece o florescimento do lado mais pessoal e artístico do músico, que na maioria dessas ocasiões escolhe o tipo de som que não se sentiria confortável em usar na sua própria banda. John Lennon e George Harrison conquistaram a contra-cultura ao assumirem um estilo com que, nos Beatles, eles só tinham permissão para flertar. Robert Plant aposentou os amplificadores do Led Zeppelin para se dedicar a baladas íntimas e sussuradas nos anos 80. E Johnny Rotten, dos Sex Pistols, não só mudou de estilo, como também de nome – voltou a ser o John Lydon do nascimento – e matou a própria persona que usava pra anunciar, aos berros, a revolução punk.

O The Last Shadow Puppets uniu dois exemplos que prometiam se juntar a essa regra. Alex Turner, recém-saído da puberdade eletrônica que foram os dois primeiros álbuns do Arctic Monkeys, e Miles Kane, que não produziu tantos hits quanto seu novo parceiro, mas que causou pequena comoção na comunidade indie com os esforços dos The Rascals. Ao invés de se permitirem fazer a música que os representasse pessoalmente, porém, a dupla abriu a porta para a tentação das abstrações e arrogâncias, o que resultou em The Age of The Understatement (2008), álbum de estréia cujo título denuncia de cara a prepotência que os jovens guitarristas usavam como roupagem. A música encontrada do lado de dentro era por si só pálida, séria e incompreensivelmente sonolenta.

Se nesse LP faltava o cinismo do Radiohead e a piscada de olho satírica de Josh Homme (em praticamente tudo que faz), seu segundo e último trabalho, Everything You’ve Come to Expect repete no título e conteúdo a arrogância que destila juramentos de empatia sonora. O violinista canadense Owen Pallett completa a parte filarmônica do álbum, enfeitando os refrões de Turner e Kane com pouco mais que artifício de perfumaria. É quando se começa a sugerir a total falta de algo que se conecte ao que os dois pretendem passar. Turner e Kane usam riffs de simplicidade ditática para ressoar ecos insossos afetados exageradamente por algumas das composições e arranjos mais planos que já se ouviram no rock independente. Um dos carros-chefe, Bad Habits, repete estrofes indolores e acordes incapazes de causar um arranhão. E para cada sugestão de despertar, como em The Element of Surprise, se arrasatam mais dez minutos das aborrecidas Aviation e Used To Be My Girl.

É a participação de Pallett, no entanto, que parece inflar exageradamente o vazio lírico do disco e escancarar o que, em seus primeiros minutos, era apenas uma ameaça: Nunca, em tanto tempo dedicando-me a ouvir e amar rock, eu ouvi algo tão sem alma, sem coragem ou sem honestidade como esta compilação, que durante toda a sua extensão faz a escolha pela máscara da música pop corporativa ao invés de um convite ao pessoal e ao talento escondido.

Se lá no final dos anos 70 John Lydon mostrou quem ele realmente era ao usar sua nova Public Image Ltd. para compor canções desafiadoras e libertadoras, em Everything You’ve Come to Expect a libertação musical de Alex Turner e Miles Kane restringe-se ao idealismo: às vezes a única falha de um plano é a sua execução. No plano aparentemente infalível do The Last Shadow Puppets, as ideias talvez funcionariam se continuassem para sempre apenas como ideias.

 

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