cisnes selvagens

O Swans é uma banda de percepções. Mesmo após ouvir um álbum completo do grupo, se convencer de que existem instrumentos sendo tocados, vozes cantando e uma etiqueta de um gênero para o som, é difícil convencer qualquer ouvinte de que o que ele acabou de escutar pode ser considerado música. Ao invés disso, prefere-se convencê-lo a perceber, dentro do retalho de sons que acabou de ouvir, algum significado, por mínimo e superficial que seja.

De fato, o concretismo sonoro do líder Michael Gira teve, em sua história, fases de questionamento artístico. Um dos EPs mais caóticos da banda, Young God, por exemplo, podia ter sido vendido como uma mixagem de efeitos sonoros roubados de um filme de terror. Outros álbuns mais “completos” sequer obedecem ao conceito primitivo de uma melodia. Sem harmonia, progressão, afinamento, os Swans ainda conseguiram o essencial: gente que os escutasse – mesmo que sem completamente entendê-los.

Para fins didáticos, porém, jornalistas preferem classificar a banda como post-punk, um termo tão vasto e abstrato que qualquer torneira pingando em cima de um tambor de pele de touro pode se enquadrar no gênero sem polêmicas. Nos últimos álbuns do grupo, o trabalho da turma de Michael Gira recebeu a recomendação de que talvez estivesse seguindo o post-rock: outro ninho de definição pra qualquer espécie, mas que é mais lembrado como sendo a propriedade privada de bandas como Sigur Rós e Mogwai.

De qualquer forma, qualquer gênero parece inútil assim que as primeiras guitarras da banda se fazem soar. Por isso mesmo, recomendar o Swans para alguém é que nem recomendar a uma pessoa que ela arranque a unha do dedão do pé, jogue sal e azeite dentro e depois pressione a unha de volta. É bem possível que ela vá odiar e nunca mais vai querer experimentar coisa parecida. É bem possível também que ela mude seus conceitos pessoais do que é música, do que é som e impulso harmônico, e das razões pelas quais ela escuta música, em primeiro lugar. Essas razões, desafiadas por Gira durante todos os mais de 30 anos de estrada de sua banda, parecem ter ficado um pouco mais claras (porém não mais confortáveis) com To Be Kind, sua última obra (prima). Na falta de exagero maior, continua sem parecer música, mas sim algo muito melhor, ainda sem definição e sem história, cuja aceitação é segurada pelo público que ainda não acredita estar preparado para algo tão desafiador e – por que não -, divino.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s