o sentimento universal

as músicas do arcade fire se baseiam em um sentimento muito compartilhado pela música e pela meia-idade em geral: a saudade. é dela que o fundador do grupo, win butler, tirou espírito para compor algumas das mais intensas músicas do indie pop/noise pop/indie rock/alternative/grunge/forró-pestana roqueiro. durante toda a discografia de três grandes álbuns da banda é possível detectar, de diferentes formas, as manifestações de uma melancolia corriqueira e onipresente: a saudade é uma nota que se repete linearmente por toda a obra do arcade fire.

de forma mais agressiva, ela aparece no álbum de estreia, Funeral, que teve como plano de fundo as mortes de diferentes familiares de membros da banda. daqui surge a temerosa inspiração para o que parece ser uma mistura entre o réquiem choroso e a esperança recuperada, nascida do conforto que a dor traz. (“o gelo cobriu as mãos dos meus pais/ não tenho mais sonhos, não tenho mais planos“). régine chassagne sente sua família, tão presente na infância, e tão forte, desfalecer-se com a morte de uma matriarca, fato ao qual ela não deixa de prestar um tributo emocionado: (“minha árvore genealógica/perdendo todas suas folhas […] /um relâmpago fez calor o suficiente / para derreter o asfalto sob seus pés“), declama ela em In the Backseat, talvez uma das mais completas músicas do grupo. 

em Neon Bible, a saudade tem como alvo as formas mais inocentes e puras do pensamento adolescente de como funciona o mundo. butler mira na sua criação religiosa, onde o mormonismo o levava a ver a vida de uma forma incongruente com os desafios da adolescência. as referências bíblicas, aliás, vão além da faixa-título, se estendem para a canção de abertura, Black Mirror, onde o surrealismo vanguardista ocupa, por um momento, o centro das emoções (“o espelho negro não conhece o reflexo não conhece o orgulho, nem a vaidade“). 

apesar de todas essas, o melhor da banda aparece mesmo é no terceiro álbum, The Suburbs, de 2009, facilmente carimbado como obra-prima. dele surgiram diversas experiências de além-música – a mais conhecida sendo uma parceria com o cineasta queridinho hipster Spike Jonze para um curta metragem adaptado das canções do álbum. estas, por sua vez, tem como musa as figuras que butler conheceu quando criança, e que insistem em desaparecer depois de crescidos: (“[…] não consigo me lembrar / mas você cortou o cabelo, e nunca mais o vi / e as cidades onde vivíamos / parecem estrelas distantes / mas ainda o procuro, em cada carro a passar“). de certa forma, são sentimentos verdadeiros, expressos da melhor forma em canções como Ready to StartSuburban WarDeep Blue Month of May.

e, por fim, abaixo segue a letra e apresentação ao vivo de We Used to Wait, uma das faixas de encerramento de The Suburbs. uma das mais memoráveis conquistas do grupo, onde os sentimentos expressos no álbum se convergem em um nível de habilidade musical a ser respeitado, não antes de ser apreciado:

I used to write,
I used to write letters
I used to sign my name

I used to sleep at night
Before the flashing lights
Settled deep in my brain

But by the time we met
By the time we met
The times had already changed

So I never wrote a letter
I never took my true heart
I never wrote it down
So when the lights cut out
I was left standing in the
Wilderness downtown

Now our lives are changing fast
Now our lives are changing fast
Hope that something pure can last
Hope that something pure can last

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