é “só” uma fase

o engraçado de certas bandas lendárias, com mais de 40 anos de carreira, estrela na hall da fama do rock, etc, é poder encaixar suas “fases”, ou “períodos” de acordo com a nossa própria percepção da história de cada um. temos os beatles boy-band, os beatles polemicuzões, os beatles cabeça, os beatles hipongas, e por último, os beatles transloucados. o metallica pré-puppets, pós-justice, black album, fase-load, pós-decadência. o led zeppelin, da pauleira ao folk transcendental e intimista. até mesmo os rolling stones, que tentaram manter as raízes no blues intocadas, por vezes patinam por terrenos estranhos.

como fã de aerosmith, também tomo a ousadia de criar um pigeonhole para cada situação emocional na qual os rapazes de Boston parecem se encontrar em cada fase de sua história. os critérios variam dos mais óbvios aos mais preconceituosos (difícil, por exemplo, deixar de associar as mudanças musicais com a afinação da voz de steven tyler). um conceito fixo, no entanto, se baseia nos quatro primeiros álbums da banda, respectivamente, Aerosmith (1973), Get Your Wings (1974), Toys in The Attic (1975) e o ápice dessa chamada fase, Rocks (1976).

difícil não reconhecer em Rocks toda a base para o rock dos anos após 1976. foi o álbum que oficializou o que seria o som predominante da retomada do rock como gênero no fim dos anos 80, do surgimento do thrash, do hair e do afirmamento do grunge. foi o vinil que os pré-adolescentes do speed metal, do nu e do metalcore ouviam e também o que tomou a decisão por eles de se tornarem também roqueiros. foi o disco que ensinou slash e james hetfield a tocar guitarra. e foi o braço direito na carreira musical de quase todo mundo que gritava e grunhia nos anos 80-90.

o impacto cultural que o álbum causou é evidente e definitiva. difícil é explicar por que. talvez seja o caldeirão cuja mesma fórmula fermentou o gênero do rock em si nos anos 50: aqui a pauleira se funde pra sempre com a sensualidade da guitarra blues que formava a espinha do som da banda ainda no começo, lá no fim dos anos 60, quando todos estavam saindo da puberdade física para penetrar a adolescência da fama. talvez também seja a representação para a sede musical que todos os roqueiros da década de 80 sentiam na época (se forçar muito, dá pra ver a semelhança óbvia do começo de Nobody’s Fault, faixa mais nervosa da lista, com o de Damage Inc., última e mais elétrica música do Master of Puppets do Metallica. ambas começam em atmosférica sinteticidade para explodirem no corpo violento da canção em si).

mas a melhor explicação é também a mais descarada: é um baita dum álbum. fecha com chave de ouro a primeira grande fase da banda, e tem o efeito colateral de nunca ter conseguido ser plenamente igualada durante o resto da enorme carreira de seus integrantes.

de qualquer forma, ninguém faz nada que possa vencer depois. Rocks não precisa ser vencido, todo mundo já o elegeu como especial na história do rock. não tem “fase” que derrube esse veredito.

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