vanguardas na sala de jantar

qualquer coisa falada antes sobre Os Mutantes já foi suficiente e dificilmente alguém pode acrescentar algo mais. Os Mutantes, de qualquer forma, não é banda de descrições, resenhas, crônicas ou notas. simples e diretamente, é uma banda que prezava pelo impulso mais primitivo e ancestral da música: a emoção. pensando assim, fica fácil entender porque algumas de suas canções mais famosas exerçam até hoje, uns cinquenta anos depois de suas respectivas composições, um certo fascínio e excitação que só quem aprecia a música como parte inerente da natureza pode totalmente entender.

de toda a sua eclética e abrangente discografia, podem ser tiradas influências e estilos musicais diversos. o aspecto da emoção, no entanto, permanece o mesmo durante os 14 álbums e EPs que a banda lançou em meio século. uma emoção que explica desde as façanhas de gás progressivo e psicodélico de sérgio dias (único membro original sobrevivendo da marca do grupo), às inspirações políticas da trilogia inicial – Os MutantesMutantesA Divina Comédia -, munidas de um humor tão sutil que chegam disfarçadas de desprezo: “[…]Essas pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer“, diz a maior de suas músicas-legado, Panis Et Circences, composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil e hoje repetida em forma de hino por quem ainda se lembra.

as letras sublimes, fundidas na voz debochada, quase risonha, ora de arnaldo baptista ora de rita lee, por vezes fazem o ouvinte se sentir atingido. mas também fica claro que é essa a exata intenção, apontar a arma para quem se julga seguro do olhar intelectual privilegiado dos mutantes, que usavam de um gosto incomum pela música e, enfim, pela vida. no fim, o constrangimento dos alvos pode sumir e mostrar que os mutantes, além de atacar nossa vida, também nos convidam para uma nova, do lado de lá, onde tudo parece melhor: “Ah! Deixa pra lá meu amor Vem comigo e esquece Este drama ou o que for Sem sentido“, é o que sugerem em Quem Tem Medo de Brincar de Amor. 

uma das minhas bandas favoritas, os mutantes eventualmente sentiram a lâmina fria da realidade penetrando a fantasia, em conflitos que envolvem drogas, ciúmes e partidas. nada, porém, que valha a pena ser lembrado aqui, onde a emoção que sobrou ainda pode ser sentida e abraçada. vítimas, enfim, de seus tempos, mas também – e felizmente – da imortalidade.

em vídeo, Fuga Nº2, numa apresentação sentimental diante de uma plateia inconsciente.

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2 Respostas para “vanguardas na sala de jantar

  1. Ótimo texto, cara. Eu só conheço a fase do trio original, mas curto muito. Principalmente essa coisa da emoção, da energia que você falou.

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