o que pode ser?

“Obrigado, Emiliano.”

ninguém perguntou, de novo.

Veja bem, veja bem, veja muito bem: Só por que eu fiz um post dizendo que não daria minha opinião sobre mais nada nesse mundo não significa necessariamente que estaria em cima do muro sobre tudo. Claro que não. Tenho sim uma opinião, muito bem formada, muito bem argumentada. Mas não vai ser por isso que vou expor ela por aí em rede sociais, discussões acadêmicas (risos), etc.

O motivo é simples: sei que escancarar o modo como penso em rede sociais atrairia opiniões contrárias. Atrairia também briguinhas onlines, coxinhismo bilateral, e essas coisas para qual eu estou velho demais (ou jovem demais) pra dar importância.

Desculpem-me, mas tenho mais o que fazer. Como terminar de assistir a season finale de Alcatraz.

suicídio.

Daqui a pouco terei 20 anos. Duas décadas sem realizações, com muitos planos e sem nada de empolgante ter necessariamente acontecido. 20 anos sem ter feito nada de que me orgulhe. Nada.

Meus pais não deviam ter me prendido. Eu devia ter aprendido sozinho. O freio podia estar mais solto, menos apertado. Eu devia ter aprendido a tocar violão antes, podia ter começado uma carreira mais cedo. Ao invés, preferi gastar todo o meu tempo na frente de uma tela branca, me atrasando com a nudez alheia e com amizades distantes.

Devia estar lá fora, rindo, amando e vivendo. Mas algo que aconteceu lá no começo me fez ter medo de tudo isso. Medo de experimentar, de encarar, de ir fundo, de me exibir, de me mostrar como eu sou, não de dividir toda a minha personalidade para agradar os diferentes meios em que vivi.

Minha família não devia ter me dado dois nomes e me chamado sempre pelo segundo. Muito menos deviam os outros ter me chamado pelo primeiro. Assim, quando falo sozinho, não sei como devo me referir a mim mesmo. Além de um caráter fracionado, também não tenho nome.

Podia ter decidido o que eu queria antes. Bem antes. Mas hoje o que eu quero já não é o que eu tinha em mente há dois anos. Que já é outra coisa do que eu desejava há quatro. Tudo que eu era aos 10 anos de idade morreu. Não existe mais nada. Se existe, está guardado e esquecido, lá no fundo da gaveta, talvez apodrecendo.

Os poucos amigos reais sumiram. Um ou dois restam. Periga ser só um. Espero ainda ser dois. Mas sei que não é. Sei de muitas coisas que não são o que desejaria ser.

Sei que ainda vou mudar muito. Eu quero mudar muito. Mas isso poderia acontecer mais rápido. Assim não me humilharia no futuro, lamentando tudo o que não aconteceu, culpando todos os que me atrasaram, chorando por tudo o que perdi.

Talvez eu me venda ao sistema, talvez continue o mesmo, talvez perca alguém, talvez perca a mim mesmo, ou talvez acabe com tudo para viver como não planejei. Um golpe tirado dos lugares mais obscuros e perigosos da manga. Algo tão imprevisível que eu próprio não me lembraria de como aconteceu. Ou talvez não.

opinião pra que, meu amigo.

Resumo da ópera: Fiquei sozinho em casa, voltei a fazer trabalho de faculdade, procurei emprego e briguei no twitter.

No caso do último ítem, a treta ocorreu quando, na sexta, abri minha TL e vi um rapazinho se queixando do fato de sua professora ter sentido pena de um cachorrinho de rua e ter ido comprar comida para ele no bar da Faculdade. Indignidadíssimo, ele ainda ressaltou o fato da professora preferir se importar com um cachorro do que com seres humanos.

Pronto. Lá fui eu, me intrometer em algo do qual eu não tinha a ver, pra defender alguém que eu não conheço, por uma causa da qual eu não tenho participação ativa. Fui dar a minha opinião, mesmo sem ninguém ter perguntado por ela.

De esperado, o cara não se convenceu. Insistia na tecla do “Cachorro passou a valer mais que pessoas”, “Agora tem que tratar bicho igual gente”, etc. Continuei rebatendo, argumentando, esclarecendo, tentando fazer o dito cujo entender. Tão educadamente quanto possível.

Nada. Em um último fôlego, ele ainda fez referência ao último post desse blog: Pra um cara que é a favor do bullyng, que tipo de argumento vou ter eu…

Os que realmente leram o texto (e entenderam) viram que eu não defendia o bullying, mas sim criticava as campanhas anti-bullying, pedagogos, Ministério da Educação e Serginho Groisman, justamente por seus alvos estarem centralizados no agressor, quando deviam cada vez mais dar atenção ao lado de lá: Aconselhar o agredido, ensiná-lo a se defender e não deixar que isso afete sua vida.

Podia continuar aqui, argumentando, explicando, passando a limpo, dando a minha opinião. Podia. Podia, se mudasse a mente das pessoas, que é o que eu pretendia. Isso, como eu bem aprendi, não vai acontecer.

Pois bem. Agora chega. Sem parecer. Não dou a minha opinião sobre nada. Não me intrometo em nada. Não discuto sobre nada. E se me perguntarem, finjo um espasmo cerebral e respondo com um Dooh Dah, Dah, Dah Dooooh, Duh, Dah, Deh, Dah, Dooh-Dooh-Dooh-Dah-Da-Da. 

Legalização do aborto? Dooh-Dooh-Dooh-Dah-Da-Da. Casamento gay? Dooh Dah, Dah, Dah DoooohMarcha da Maconha? Dah, Dah, Dah Dooooh, Duh, DahRafaella Justus? Dooooh, Duh, Dah, Deh, Dah, Dooh-DoohMovimento anti-corrupção? Dah, Dooh-Dooh-Dooh-Dah-Da-DaEutanásia? DOOH-DAH-DOOH-DAH-DOOH-DOOH-DAH-DAH-DOOOOOOOOOH

Agora é assim. Igual uma criança de sete anos. Que ainda não cresceu, não tem opinião formada nem sabe argumentar. E que só quer saber de brincar de Skyrim, ler A Song Of Ice and Fire e escutar Foo Fighters.

A favor do bullying.

Rafael morava na mesma rua da escola. Isso, no entanto, não o impedia de estar sempre atrasado para as aulas. Apesar de estarmos na terceira série, ele já havia repetido de ano duas vezes. Já tinha bigode, sobrancelhas grossas, sardas espalhadas pela pele e uma voz ressoante.  Sendo o mais velho da classe, era também o mais alto. Estava sempre com uma expressão nervosa esculpida no rosto severo, que usava para impor respeito. Não tinha amigos, andava se intrometendo nos grupinhos e nas brincadeiras. Era um clichê.

Certo dia me cansei das agressões gratuitas e quis revidar. Levantei da cadeira, atravessei a sala e lhe dei um chute na canela. Ele, de esperado, não gostou. Na saída para o recreio ele passou por mim e enfiou a ponta do joelho em meu estômago. Apesar do golpe, aquela foi a última vez que agiu violentamente comigo.

O inesperado deu as caras pouco tempo depois: Em um trabalho de pares, acabei ficando sem grupo e Rafael também. A professora olhou com desconfiança para a dupla, mas acabou permitindo. Combinamos de pesquisar juntos naquela tarde. Assim feito. Depois do almoço, pegamos cada um sua bicicleta, nos encontramos em uma esquina e saímos a pedalar pelo bairro. Não me lembro direito, mas tenho a certeza de que visitamos um campo de argila que ele conhecia e tinha me mostrado o caminho. Na volta, perguntei o que ele preferia, se Matemática ou Português. “Matemática”, ele disse, “a professora de português é muito chata”.

Rafael foi só mais um. Houve muitas outras agressões, de diferentes tipos, em diferentes lugares. Sempre fui o alvo predileto de quase todo mundo. Da minha voz ao meu Pokémon de estimação, tudo era motivo de chacota. Mas o tempo passou. Hoje estou vivo, saudável, realizado e satisfeito. Não há nada que aconteceu antes que não possa ser lembrada com carinho. Pensar nisso me levou a uma conclusão.

Em tempos de politicamente correto, a sociedade parece abrir os olhos para concepções artificiais e virar as costas para algo muito mais importante: a natureza. A mesma natureza que diz que o mais forte prevalece sobre o mais fraco, que diz que quem não sabe se defender é cortado do jogo sem piedade nenhuma. Que diz que o ser humano, desde criança, é um ser vil e egoísta, disposto a qualquer coisa por seus objetivos torpes e gananciosos.

Enquanto o governo federal produz cada vez mais campanhas contra isso que batizaram de bullying, a tradição se repete incontrolável: os valentões e as gostosas continuam a reinar incólumes, acima de gordos, baixinhos, homossexuais e nerds. Esses, por outro lado, crescem torturados, sem qualquer capacidade de se virarem sozinhos. Seus defensores ativistas não sabem, mas em nada ajudam.

As campanhas, por sua vez, direcionam-se ao agressor ao invés do agredido. O resultado talvez seria outro se, ao invés de “Não pratique bullying”, elas se virassem para a vítima, apontasse o dedo em suas caras e gritasse “Aprenda a se defender!”.

A vida não é fácil. Crianças não devem achar o contrário, apenas por que ao lado delas está alguém capaz de protegê-las de quem quer que seja. É na infância que se aprende a viver, a sofrer, a não confiar em qualquer um e a não aceitar injustiças. É na infância e na adolescência que se supera todas as dolorosas fases do crescimento. O bullying é só uma delas.

Quem sabe Rafael no fundo precisasse apenas de um chute na canela. Ou então de alguém com quem sair, andar de bicicleta, conversar. Quem sabe eu também precisasse disso. Fica a sugestão.

spartacus: vengeance

Começou a segunda temporada de Spartacus, série sobre gladiadores que segue a linha UFC: Pornô gay para homens héteros. Por tradição esse não é um blog que fale de séries, nem de nada, mas acordei hoje com os dedos coçando para contar a minha impressão da produção. Lá vai:

- É mundialmente sabido que entrou em cena Lian McIntyre, novo ator a interpretar Spartacus depois do antigo, Andy Whitfield ter sido diagnosticado com Câncer e mais tarde, morrer. Espera-se que um substituto seja ao menos parecido com o ator passado, certo? McIntyre não tem nada a ver com Whitfield: É mais magro, mais baixo e um pouco mais talentoso. Em nenhum momento passa a impressão de um líder revolucionário, pelo menos não com aquelas canelas de leite.

- A série continua produzindo cenas violentas a base de sangue de grosélia, mas as cenas eróticas foram diminuídas, reduzidas a uma só tomada onde um puteiro é explorado pelo ponto de vista de um glutão que se masturba enquanto anda. Mas acreditem, não é nada comparada a primeira temporada.

- No quesito carnificina, no entanto, nada muda: Em uma cena, inclusive, Crixus (Manu Bennett) fere um cafetão na barriga, para logo depois se agachar diante do corpo ainda vivo, enfiar os dedos na ferida e puxar suas entranhas pra fora. Delícia.

- Parece que ia ter uma trama de incesto entre irmãos gêmeos vilões, igualzinho Game Of Thrones. A série da HBO, aliás, foi o motivo pra essa ideia ser abandonada. Afinal, a história de amor entre Seppius (novo chefão de Cápua) e sua irmã Seppia era parecida demais com a de Jaime e Cersei Lannister para os produtores serem depois acusados de pular no bonde. Mesmo assim, a tensão sexual entre os dois não foi ignorada e dá pra ser percebida já no primeiro episódio.

- A série é toda rodada na Nova Zelândia e quase todos os atores são de lá. Algo que pra mim nunca fez sentido, já que 80% das cenas são filmadas na frente de uma tela verde e as outras 20% são feitas em estúdio. Não tem nenhuma locação natural. Mas enfim.

- Lucy Lawless, eterna Xena, marcou seu retorno aos Estados Unidos na primeira temporada, interpretando a explosiva e trambiqueira Lucretia. [SPOILERS] A personagem foi dada como morta no fim da primeira temporada, logo após a rebelião de Spartacus estourar e um massacre na casa de Batiatus acontecer. Mas os roteiristas (e o público) gosta demais de Lawless para que a atriz abandone o programa assim, do nada. Ela volta mais louca que o normal, deixando uma sugestão de que esteja apenas fingindo para depois se vingar dos que iniciaram o massacre. [/SPOILERS] Enquanto isso, a Lucy Lawless da vida real está nesse exato momento acorrentada a um navio na costa neozelandesa em protesto pelo meio ambiente. Vamos acompanhar.

- Deu pra perceber que a segunda temporada é mais bem produzida que a anterior. Nada mais esperado: Foi com Spartacus que o canal americano Starz conseguiu seu primeiro sucesso de audiência. Não sei muito sobe isso, mas parece que esse canal era uma espécie de RedeTV! da TV fechada dos EUA, com produções toscas e orçamentos limitados. Depois que Spartacus despontou no circuito nerd, porém, a emissora tomou a liberdade de arriscar fazer produções mais caras e histórias mais bem elaboradas.

- O nível dos diálogos e das atuações, porém, continua o mesmo: baixo. De qualquer forma, a série, seja pela violência computadorizada e cômica ou pelas cenas de sexo explícito e exageradas, se tornou quase um fenômeno trash dentro das esferas de séries, onde a história de Spartacus é mais uma vez contada de forma diferente da usual, explorando suas origens e adicionando seus motivos para a maior rebelião de escravos que esse mundinho cão já viu.

#filmaeu

Um anão, um cachorro e a equipe de "O Artista".

Não sei ao certo, mas tenho quase certeza de que o aniversário de 15 anos da minha irmã mais velha, treze anos atrás, foi uma festa infinitamente mais interessante do que o Oscar 2012, que aconteceu ontem.

A mesma palhaçada de sempre, só que mais chata. Os prêmios óbvios e esperados, as injustiças conhecidas, o nacionalismo inflamado, as piadas nulas, os apresentadores requentados.

Billy Crystal tentou salvar a atolação. E conseguiu, umas duas ou três vezes. Nas chamadas pros intervalos entrava em cena uma banda esquisita tocando qualquer coisa nos camarotes enquanto vendedoras de pipoca passeavam pela plateia. Uma coisa meio idiota, sem inspiração.

Quiseram fazer um tema pra cerimônia, no caso, uma homenagem ao cinema, que tá pra fazer 100 anos de vida. Pra isso chamaram uma penca de rostinhos brilhantes de Hollywood pra fazerem caras e bocas de draminha enquanto diziam o que o cinema significa pra eles. Pelo amor de Deus.

Jean Dujardin quase fez um teatrinho à parte com umas expressões que nem sentindo dor eu consigo atingir. Além da categoria de melhor ator, também faturou o título de Maior Babaca da História, que antes pertencia a Victor Fasano.

Obviamente que ganhar prêmios é uma coisa muito cansativa (ser um idiota também).

Não sei por que ainda assisto a essa merda. Ta mais do que na hora de desligar a TV, ler um novo livro, aprender um novo idioma, tocar um novo instrumento, ou até mesmo ver todos os filmes bons que ficaram de fora da chatice aristocrática da Academia de Artes.

p.s.: Estou com a leve e angustiante sensação de que não vi nenhum dos filmes que foram indicados a qualquer prêmio esse ano. Minto, vi Planeta dos Macacos dia desses em dvd. Concorria à estatueta de Efeitos Especiais, mas perdeu pro playboy Hugo (antes que comecem a me julgar pelo trocadilho, eu queria dizer que sou humano e não resisti à tentação).